Mar calmo nunca fez bom marinheiro – Março/18

 

Março foi um mês revolto para os mercados mundiais, em especial o mercado americano, que fechou o mês novamente no negativo.

Indicadores acima da expectativa na economia americana reforçam a tendência de aumento de juros. Isso provoca migração dos recursos investidos em bolsa para a renda fixa. Aliado a isso, há um certo consenso de que a bolsa americana está cara, sem potencial para novas altas, trazendo o medo de correções bruscas.

E bolsas americanas caindo arrastam com elas as demais bolsas mundiais.

Como consequência o investidor estrangeiro busca se antecipar a uma possível queda por lá e resgata seu capital especulativo investido aqui, em um movimento muito mais emocional do que racional.

Isso se confirma com os números divulgados pela B3: O saldo de investimento estrangeiro acumulado do ano é de R$ 22 milhões. Na prática, significa que os bilhões investidos este ano já foram todos resgatados. Por outro lado, fundos institucionais locais e pessoa física foram às compras: o saldo acumulado do ano é de +4,137 bilhões e +1,914 bilhão respectivamente.

Isso, porque aqui no Brasil estamos em cenário oposto ao americano. Juros na mínima histórica, com dados de inflação abrindo espaço para novas quedas na Selic. Assim, não há outra alternativa de remuneração atrativa além da Bolsa. É Bolsa ou Bolsa para o gestor financeiro que precisa trazer resultados.

 

Performance acumulada dos ativos em carteira

 

Em outras palavras, quem está segurando a bolsa aqui são os investidores locais. As posições trocaram de mãos e como resultado, quando o mercado local deveria ter sofrido uma derrubada brutal em março, o índice fechou o mês praticamente inalterado em relação a fevereiro.

Ainda há um capital imenso alocado em renda fixa no Brasil, fruto de décadas dos maiores juros do mundo. Mantendo-se as condições de manutenção da taxa de juros a níveis atuais, e sustentado o crescimento do PIB, haverá mais migração para a Bolsa.

No curto prazo, estamos sujeitos à volatilidade. Por vezes, o mar será revolto. Se a bolsa americana continuar volátil e com quedas bruscas, podemos esperar reações de pânico com selloff generalizado. Navegamos conforme as ondas e buscamos nos proteger da água que entra: volatilidade é oportunidade. Apenas proteger-se dela gera custos, que a longo prazo comprometem a performance do fundo.

No cenário local, atravessamos o período de divulgação de resultados do 4T17. Excelentes resultados de nossas empresas, que apresentaram melhorias em seus balanços de maneira quase uniforme, dando forma à recuperação da economia.

Porém, dois destaques negativos foram determinantes para performance negativa da carteira: Lopes Incorporadora (LPSB3) e Technos (TECN3).

Lopes divulgou números ainda ruins no último trimestre, mas são de efeitos não recorrentes, como contingências financeiras. Tudo aponta para um bom desempenho em 2018 com o reaquecimento do mercado imobiliário. Mantemos a empresa à bordo de nosso barco.

Já Technos (TECN3) divulgou resultado decepcionante. Apesar do bom trabalho interno de redução de despesas e eficiência de gestão apresentados no balanço, a demanda do consumidor não veio. A essa altura, acredito que a demanda não virá. Mesmo barata, nada impede que se torne ainda mais barata. Sem perspectivas, arremessamos Technos ao mar (sem colete salva-vidas) e partimos para outras oportunidades.

Adicionamos Petrobrás (PETR4) à carteira. A empresa passou por um belo processo de turnaround sob gestão de Pedro Parente, e trouxe resultados sólidos, com boas perspectivas para o futuro. O escrutínio da lava-jato trouxe ganhos de transparência e governança, o que é sempre positivo, especialmente em uma estatal.

Aguardando possíveis quedas bruscas no exterior (e elas virão), adicionamos puts (opções de venda) de ETF de Ibovespa (BOVA11) para ganho adicional em um momento de stress dos mercados.

Ajustamos nossas velas, esvaziamos nossos baldes e seguimos navegando!

 

Marcelo Przedzmirski

Marcelo Przedzmirski investe no mercado financeiro há mais de 10 anos e é Gestor do Fundo de Investimentos Alfa Capital. MBA em Gestão Estratégica de Empresas pela FGV e MBA em Gestão Financeira: Mercados Financeiros e de Capitais, também pela FGV.