No alto da montanha, mora um urso – Janeiro/18

 

Nosso processo de criação dos relatórios envolve olharmos o que passou, projetar cenários do que está por vir e realizarmos ajustes e correções necessárias.

A parte mais difícil – para não dizer impossível – envolve estimarmos o que está por vir. Em teoria, quanto mais variáveis temos conhecimento, mais cenários conseguimos projetar.

No cenário nacional, nossas projeções se materializaram. Tivemos condenação unâmime de Lula em segunda instância, e nossas posições foram fortemente beneficiadas. Alfa Capital subiu 7,16% versus 11,14% do Ibovespa e 0,56% do CDI. Já lembrando que neste mês adotamos novo cálculo de rentabilidade: são 7,16% de aumento líquido e real de patrimônio.

Já no cenário internacional, algo inesperado aconteceu. A própria definição de Cisne Negro segundo Nassim Taleb: um evento imprevisível e de alto impacto.

Performance acumulada dos ativos em carteira

Existe um índice americano que mede a volatilidade (flutuação de preços). O índice VIX (Volatility Index) se baseia nos preços das opções do S&P 500 e mede as expectativas dos agentes para a movimentação das ações nos próximos 30 dias. Os investidores tendem a recorrer as opções do S&P 500 sempre que uma queda das ações se apresenta no horizonte. Até por esta razão que o VIX é conhecido no mercado como o Medidor do Pânico.

E existem derivativos financeiros baseados no VIX. Eles sobem de preço enquanto o VIX permanecer estável. Mas como assegurar estabilidade de algo inerentemente instável?

Durante anos, especuladores recolheram moedas (bilhões de moedas) na frente de um rolo compressor. E dia 5 de fevereiro, essa conta chegou. Uma mudança brusca nos preços das ações do Dow Jones americano, também motivada por algoritmos de trade, que executam automaticamente ordens de compra e venda a determinados valores, levaram esses derivativos a valores próximos de zero.

VelocityShares Daily Inverse VIX Short-Term ETN

Foi o momento de jogarmos fora nossas projeções (inclusive o relatório de janeiro) e aguardarmos e repensarmos os cenários para o futuro.

Anos de liquidez extrema motivaram muitos gestores a tomarem mais risco que seu patrimônio permite, tentando extrair mais rentabilidade. Ativos como o acima tem valor deletério para o patrimônio. Diferente de uma ação, seu valor não se recupera. Quem perdeu esse dinheiro (e não foi pouco), o perdeu para sempre. Não é à toa que Warren Buffett as chama de “armas de destruição em massa”.

Isso invariavelmente cria uma reação em cadeia. Gestores se vêem obrigados a tomar ainda mais risco para tentar recuperar o prejuízo, ou se desfazem de posições boas para cobrirem suas posições podres. Foi o que vimos nos dias seguintes ao evento: bolsas caindo ao redor do mundo, capital saindo do mercado local.

Acredito que lá fora, a festa está acabando, mas nem todos perceberam isso ainda. Ainda estamos dançando aqui, mas a música que vinha de fora já parou.

Inflação americana está subindo junto com a atividade, juros aumentando. Juros maiores levam fluxo de capital do mercado de renda variável para renda fixa americana (a mais segura do mundo, agora sendo remunerada a uma taxa não desprezível).

Nesse momento que o relatório está sendo escrito, parecemos estar entre essas duas forças. É no alto da montanha que Touros (mercado para cima) e Ursos (mercado para baixo) se encontram. Novamente, predições não importam: nunca teremos todas as variáveis sob nosso controle ou mesmo conhecimento. Assim, preventivamente reduzimos algumas posições para termos caixa disponível e seguimos atentos aos balanços de nossas empresas.

De ordem prática, na carteira zeramos posição em Banco do Brasil (BBAS3) para adicionarmos ao caixa, mas abrindo call em BBASC429 para aproveitar a divulgação de balanço em 22 fevereiro, que acreditamos ser positiva. Além disso, abrimos posição em Gerdau (GGBR4).

Seguimos na retomada do PIB nacional, com números de indústria e varejo surpreendendo positivamente. As pessoas voltaram a consumir, o setor produtivo voltou a produzir. Este ano teremos um crescimento econômico da ordem de 2,5% a 3%. Assim, Brasil tem mais upside do que downside. Enquanto isso permanecer, continuamos com nossa estratégia. Nossas empresas vão se beneficiar da conjuntura econômica, vão lucrar mais e se valorizar.

À medida que o upside se mostrar reduzido, podemos adotar posturas mais defensivas. Por ora, seguimos no ataque, com cautela redobrada aos acontecimentos externos.

 

Marcelo Przedzmirski

Marcelo Przedzmirski é gestor do fundo de ações Alfa Capital e investe no mercado financeiro há mais de 10 anos. MBA em Gestão Estratégica de Empresas pela FGV e MBA em Gestão Financeira: Mercados Financeiros e de Capitais, também pela FGV.